The end

em domingo, dezembro 19, 2010
É o fim. O amor, outrora flores, modificou-se: virou espinho, dores. Não dá mais. Precisei desatar-nós, voltamos a ser dois, você de um lado, eu do outro. Melhor assim. Não me peça pra considerar, reconsiderar, re-re-considerar. Já decidi: acabou.
Desgastou. Descoloriu. Apodreceu. Esfriou. Venceu.
Não me interessa um amor mofado, sem cor e sem gosto. Gosto de amor novo, com toda a vitalidade que se pode querer de um amor. E é por isso que eu estou te deixando, meu ex-amado.
Não me odeie por isso, por favor. Leve os bons momentos do nosso amor, mas não guarde com saudade, com uma vontade de que eles se reprisem. Guarde apenas como algo bom que lhe aconteceu, que nos aconteceu, mas não os deseje de novo, de volta. Só iria te magoar. Só iria apodrecer o nosso amor já tão apodrecido e inutilizado.
Eu estou indo agora, está bem? Amanhã, envie-me as nossas fotos, os presentes que eu lhe dei ou jogue-os fora você mesmo. Envie-me só se não tiver coragem de se desfazer por si mesmo.
Não pense que eu sou fria ou insensível. Eu só não quero um amor assim na minha vida, e nem na sua. Não merecemos isso. É isso, meu ex-amado, desejo a você um amor novo, cheiroso, florido e bonito, imensamente bonito. Espero que me deseje o mesmo. Eu mereço. Você merece. Nós merecemos. E esse será a última frase que escrevo "nós".

Adeus.

(Erica Ferro)

* * *

Postado por Erica Ferro

O outro Brasil que vem aí

em quarta-feira, dezembro 08, 2010
Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
de outro Brasil que vem aí
mais tropical
mais fraternal
mais brasileiro.
O mapa desse Brasil em vez das cores dos Estados
terá as cores das produções e dos telhados.
Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças
terão as cores das profissões e das regiões.
As mulheres do Brasil em vez de cores boreais
terão as cores variamente tropicais.
Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil.
todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor
o preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco.
Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil
lenhador
lavrador
pescador
vaqueiro
funileiro
carpinteiro
contanto que seja digno do governo do Brasil
que tenha olhos para ver pelo Brasil,
ouvidos para ouvir pelo Brasil
coragem de morrar pelo Brasil
ânimo de viver pelo Brasil
mãos para agir pelo Brasil
mãos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasis
mãos de engenheiro que lidem com ingresias e tratores
[europeus e norte americanos a serviço do Brasil
mãos sem anéis (que os anéis não deixam o homem criar nem trabalhar)
mãos livres
mãos criadoras
mãos fraternais de todas as cores
mãos desiguais que trabalhem por um Brasil sem Azeredos,
sem Irineus
sem Maurícios de Lacerda.
Sem mãos de jogadores
nem de especuladores nem de mistificadores.
Mãos todas de trabalhadores,
pretas, brancas, pardas, roxas, morenas,
de artistas
de escritores
de operários
de lavradores
de pastores
de mães criando filhos
de pais ensinando meninos
de padres benzendo afilhados
de mestres guiando aprendizes
de irmãos ajudando irmãos mais moços
de lavadeiras lavando
de pedreiros edificando
de cozinheiras cozinhando
de vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens.
Mãos brasileiras
brancas, morenas, pretas, pardas, roxas
tropicais
sindicais
fraternais.
Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
desse Brasil que vem aí.
Gilberto Freyre
Ps.Esse poema foi escrito em 1926.
Eu não ouço mais as vozes,
eu não vejo mais as cores,
eu não sinto mais os passos.
Gostaria de saber...
Cadê o país que éramos pra ser?
A angústia do mundo as vezes me afoga.
E eu me sinto perdida no meio de tantos clamores por mais humanidade.
Cadê a humanidade da humanidade?
E o velho clichê (que serve muito bem pra situação):
Que país é esse?
Postado por Letícia Christmann

No samba

em quinta-feira, dezembro 02, 2010
É no samba que eu quero te mostrar
O compasso do meu coração ao te olhar
É no samba que você não quer dançar
Que eu sorrio o sorriso de te encontrar

Karol Coelho
Dia do SAMBA. Vamos sambar?

A minha vez

em quarta-feira, novembro 24, 2010
Estou aprendendo, cada dia mais.
Aprendendo que as pessoas são eternas da melhor maneira que elas poderiam ser, e com o espaço que permitimos.
Antes tinha a ideia que as coisas acabavam e a dor ficava, comprometendo. Um tempo a mais de vida, de vivência, de dores e de sorrisos, vejo agora que a continuidade acontece dentro da gente, um dia após o outro, a lembrança é nova, o sorriso é outro, a realidade muda.
Amores novos, amigos novos, companhias novas. Sorrisos velhos, lembranças velhas, saudades velhas.
Aprendendo, a cada dia, que as coisas mudam. E como boa historiadora entendo: é na mudança que está o objeto da História.
E é assim que eu vou seguindo, um sorriso aqui, uma saudade ali, um amor agora. Intensidade acontece, paixão acontece, afinidade acontece. Mas, só acontece quando a gente deixa acontecer.
Eu quero minha História completa, interessante. Altos, baixos, lágrimas, sorrisos, dúvidas, clímax. Quase um roteiro de filme.
Aprendo, a cada dia, que não se pode deixar de viver. Viver é essencial para sentir.
Estou em plena fase de desenvolvimento.
Tem alguém escrevendo minha História aí?
"Nihil durare potest tempore perpetuo
Nada pode durar eternamente
Cum bene sol nituit, redditur oceano
Embora ainda brilhe forte o sol, volta-se para o Oceano
Decrescit Phoebe, quae modo plena fuit
Febe (Lua) diminui logo após sua cheia.
Sic Venerum feritas saepe fiti aura leuis
Assim, a ferocidade das paixões transforma-se, com frequência, em brisa suave."
(REG IX - traduzido por Pedro Paulo Funari)
Letícia Christmann

Por que? Por que? Por que? ♫

em sexta-feira, novembro 19, 2010

Gospel - Raul Seixas

Por que que o sol nasceu de novo e não amanheceu?
Por que que tanta honestidade no espaço se perdeu?
Por que que Cristo não desceu lá do céu e o veneno só tem gosto de mel?
Por que que a água não matou a sede de quem bebeu?

Por que que eu passo a vida inteira com medo de morrer?
Por que que os sonhos foram feitos pra gente não viver?
Por que que a sala fica sempre arrumada se ela passa o dia inteiro fechada?
Por que que eu tenho caneta e não consigo escrever? (escrever)

Por que que existem as canções e ninguém quer cantar?
Por que que sempre a solidão vem junto com o luar?
Por que que aquele que você quer tão bem já tem sempre ao seu lado outro alguém?
Por que que eu gasto tempo sempre, sempre a perguntar? (perguntar)

Por que que eu passo a vida inteira com medo de morrer?
Por que que os sonhos foram feitos pra gente não viver?
Por que que a sala fica sempre arrumada se ela passa o dia inteiro fechada?
Por que tenho caneta e não consigo escrever? (escrever)

Por que que existem as canções e ninguém quer cantar?
Por que que sempre a solidão vem junto com o luar?
Por que que sempre aquele que (você) quer tão bem já tem sempre ao seu lado outro alguém?
Por que que eu gasto tempo sempre sempre a perguntar? (perguntar)

* * *
Postado por Erica Ferro

Adoro essa música! Tais indagações sempre
passam por minha cabeça. Canta, Raul! Canta! Indaga!
Descreve-me!

*desculpem a ausência, mas eu voltei!

Ela sorria...

em sábado, novembro 06, 2010
A garota sorria por estar na companhia dele.
Sorria quando o via, quando o beijava, quando bebiam juntos.
Sorria quando pegavam ônibus, quando observavam algo bizarro, quando expulsavam a minhoca do box do banheiro.
Sorria quando deitava no peito dele, quando assistiam filmes, quando faziam planos pro futuro.
Sorria por poder abraçá-lo, por ouvir a voz dele bem perto do ouvido, por poderem conversar sobre qualquer coisa.
Sorria porque acreditava conhecê-lo a muito tempo, e a cada dia descobria algo novo.
Sorria porque os planos surgiam e se dissipavam da maneira mais cômica possível.
Sorria porque tinham paixões parecidas, e ao mesmo tempo completamente distintas.
Sorria porque era assim que seguia, de mãos dadas ou não, aprendeu a andar...
E por fim, como ele mesmo dizia:
Sorria... Afinal, "amores são sempre amáveis".

Letícia Christmann

Mais um pouco...

em terça-feira, outubro 19, 2010
Não era possível, as coisas tinham que estar acontecendo por algum motivo. Os fatos repetidos, as dores repetidas. Algo tinha que estar errado, ou muito certo na vida dela.
Sentou-se naquele banco circular (bem podia ser um balanço!) e pôs-se a pensar como as coisas estavam acontecendo, e porquê. As decisões tinham que partir dela. Mas acreditava que alguém estava brincando de traçar o destino dela, uma brincadeira bem sem graça, por sinal.
As coisas estavam certas, tinham que estar. Não havia muitas opções além. A vida não é brincadeira. E é muito curta pra fazer todas as coisas que queria fazer.
Entendeu a dor dele, sentia a mesma dor em si, de novo e de novo. O verdadeiro problema é que sempre ela que ficava com as lembranças, com as cartas, os bichinhos de pelúcia, as fotos, o cheiro, os momentos a dois, o relance o espelho, o mesmo lugar no banco, na sala, na vida. Ela que era obrigada a lembrar todos os instantes, todos os momentos. E sentir a dor se agudar, de novo e de novo.
Era assim, seguia assim. Uma dor ali, uma cicatriz aqui, uma lágrima acolá.
Viver é isso. Esse dorme e acorda. Sentir e não sentir. Querer e não acreditar. Decidir e ter que aceitar.
O melhor de tudo: mais um cheiro, mais um sorriso, mais um olhar, mais uma briga, mais uma vontade de abraçar em seu ser. Por fim, mais uma saudade.

"A Estrada em frente vai seguindo
Deixando a porta onde começa.
Agora longe já vai indo,
Devo seguir, nada me impeça;
Em seu encalço vão meus pés,
Até a junção com a grande estrada,
De muitas sendas através.
Que vem depois? Não sei mais nada."
J. R. R. Tolkien
Letícia Christmann
 
imagem do banner Design